Publicado por: Rodrigo A. Caldas | 1/09/2007

O Conceito de metacontingência

 Para dar um exemplo de questão que temos debatido:

O conceito de metacontingência tal como proposto por Sigrid Glenn é, de fato, necessário para a análise do tema “cultura”?

O que vocês acham? 

Sigrid Glenn


Respostas

  1. Em primeiro lugar, acho importante destacarmos que a própria Glenn alterou bastante o conceito de metacontingência ao longo das suas publicações. O conceito apresentado em 1986 é diferente do apresentado em 1988 e 1991, que é diferente do apresentado em 2004 (onde ela introduz o conceito de macrocontingência), que é diferente do apresentado em 2006 (junto com M. Malott)(!).

  2. O conceito de metacontingência, como foi dito, vem sendo refinado ao longo do tempo. Glenn e Malott em 2004 e 2006 reformulam o conceito. Em 2004, tratando especificamente de organizações descrevem assim:
    “Metacontingências são relações entre contingências comportamentais entrelaçadas e seus ambientes selecionadores. Junto com contingências comportamentais, metacontingências respondem pela seleção cultural e pela mudança evolucionária em organizações. Em organizações, metacontingências apresentam três componentes: contingências comportamentais entrelaçadas, seu produto agregado e um sistema de recepção. O sistema de recepção é o recipiente do produto agregado e assim funciona como ambiente selecionador de contingências comportamentais entrelaçadas. Contingências entrelaçadas não mais se repetirão caso não haja mais demanda pelo seu produto”.

    O produto agregado e o sistema de recepção ambos fazem parte do ambiente das contingências comportamentais entrelaçadas. Glenn e Malott separam em dois termos (produto agregado e sistema de recepção) eventos ambientais que fazem parte da seleção de contingências entrelaçadas. Qual a utilidade dessa separação?
    No nível operante de análise a resposta operante frequentemente gera diversas conseqüências ambientais, mas nem todas têm função selecionadora e, no entanto não criamos novos componentes na unidade de análise. O rato ao pressionar a barra gera como conseqüência a barra abaixada, o clique da barra, o fechamento do circuito e a água ou comida; e não precisamos de um novo componente na unidade de análise.
    No nível cultural de seleção Glenn e Malott citam como exemplo de metacontingência um restaurante.
    “O produto agregado das contingências comportamentais entrelaçadas do restaurante é a comida servida, e o sistema receptor são os consumidores. O restaurante sobreviverá somente se sua comida e suas características físicas (ambiente) satisfazem às exigências do ambiente selecionador (consumidores que comem nesse restaurante). A comida e o ambiente podem mudar à medida que o ambiente externo (preferência dos consumidores ou concorrência) se transforma”.

    Como as próprias autoras colocam muitos operantes, pessoas e/ou sistemas contribuem para o produto do restaurante: Compras, preparação da comida, servir a comida, gerenciamento financeiro, manutenção das instalações etc. Mas qual o produto do restaurante?
    Suponho aqui que um restaurante não tenha como seu produto a comida servida, mas sim dinheiro! Em um restaurante possivelmente há pessoas que tem como função dentro da organização “vender a comida” ou “cobrar pela comida”, um restaurante não apenas faz comida ele vende comida. A alteração ambiental selecionadora não seria o pagamento da comida pelos consumidores (o dinheiro no caixa)?
    Outro exemplo muito comum nessas discussões é uma fabrica de carros, onde o carro é o produto agregado e os consumidores o sistema receptor. Da mesma forma é comum nas fábricas existir um setor onde funcionários da empresa são responsáveis quase que exclusivamente pela venda do produto da fábrica e possivelmente tenham pouca ou nenhuma participação na produção do carro. Uma fábrica de carros então não apenas monta carros, mas também os vende. A venda é uma alteração em um ambiente social gerada pelas contingências entrelaçadas de uma organização, no caso específico de uma empresa. O produto vendido, o que implica alterações no ambiente social, mantém as contingências comportamentais entrelaçadas.
    De forma análoga no nível operante, a pressão a barra é mantida pelo reforçador água, não obstante a resposta operante gera várias alterações ambientais que teriam pouco valor reforçador sem a presença da água, que tem seu valor reforçador estabelecido pela condição de privação de água do rato.
    Diferenciar conseqüências selecionadoras de alterações ambientais não selecionadoras sem dúvida pode ser muito útil para nossas análises, mas será preciso um novo termo na unidade de análise?

  3. Acho que o produto agregado é (ou deveria ser) o que define um conjunto de contingências entrelaçadas. Como tal, ele não é exatamente parte do ambiente. Estaria junto com as contingências entrelaçadas num mesmo “lado” da unidade de análise. Não acho que haja, então, um novo componente na unidade análise. Houve sim uma troca: o “lugar” do produto agregado em formulações mais antigas de Glenn foi ocupado pelo ambiente externo/sistema receptor.

  4. Aqui vai o conceito de metacontingências como estamos utilizando aqui no laboratório, em pesquisas experimentais.

    “Metacontingências são relações recorrentes de dependência entre contingências comportamentais entrelaçadas (nas quais, cada operante é mantido por contingências de reforçamento específicas) com seus efeitos agregados (necessariamente produzidos pelo entrelaçamento) e conseqüências culturais que selecionam tais CCEs…as metacontingências envolvem os processos de variação de CCEs e de seleção por conseqüências culturais. Supõe-se a recorrência das contingências entrelaçadas, e seus efeitos agregados, e sua seleção por conseqüências, chamadas culturais (CCE-ea.–C)” (Caldas, 2009)

    Notem que o conceito continua o mesmo dos últimos textos de Sigrid Glenn. Tomamos apenas algumas decisões terminológicas, também baseadas em termos utilizado por Glenn.

  5. Oi Rodrigo,

    Você tem sua dissertação em PDF já?

    Se sim, pode me passar?

    Abraços.

  6. Já ta no arquivo!
    “Análogos experimentais de seleção e extinção de metacontingências”


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